Henfil e seu alter-ego, o Baixim

                                              fradin0.jpg

Este texto escrevi para o extinto projeto Pastilhas Coloridas. 

Baixim, o Alter-Ego de Henfil
Um dos principais lançamentos editoriais do ano foi o primeiro volume da antologia O Pasquim (Editora Desiderata), que cobre os iniciais três anos do jornal humorístico, que estreou nas bancas do país em 1969. Essa publicação traz para as novas gerações uma boa amostra do que foi o revolucionário hebdomadário, que, com fina inteligência e inesgotável ironia, esculhambava o que havia a ser esculhambado no país (inclusive os próprios integrantes da boêmia equipe de loucos que o produzia). Figuras limiares da nossa cultura brilharam em suas páginas, como Gláuber Rocha, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Otto Maria Carpeaux, Ferreira Gullar, entre tantos outros, somente nesses primeiros anos. E um dos artistas, que não ficava menor entre esses grandes, e que marcou a existência do semanário ipanemense, foi Henfil, junto à sua memorável dupla de fradinhos, o Baixim e o Cumprido.

Pouco se precisa dizer sobre o desenho de Henfil. É só vê-lo, e se encantar com a cinergia que emana desses traços furiosos, beirando o minimalismo. Mas muito há de se dizer sobre essa terrível figura, talvez sua maior criação, o fradinho Baixim. É um pequeno sacana, sádico, tão sádico que transforma seu masoquismo em sadismo, e que, sempre acompanhado do seu companheiro Cumprido, modelo do clérigo comum, pretensamente bondoso e correto, mas que tem sua hipocrisia desnudada pelo colega, que não perdoava uma oportunidade de mostrar quem ele e outras figuras da sociedade eram, sempre se utilizando de sua sádica ironia.
 O que Henfil pretendia era bagunçar, e o fez com maestria através do riso, não só o riso que arranca de quem o lê, ou a sua própria e mais íntima gargalhada enquanto com nanquim dava vida aos fradinhos, e sim principalmente com o riso que fazia brotar do Baixim quando este realizava suas “maldades”. O riso aflorava no personagem não pela brincadeira em si, mas de seu resultado, quando via desarmada a vítima, sem a máscara que carregava no início da tirinha. E, efeito dominó, milhares (se não milhões) de outras máscaras caíam pelo país adentro. Baixim rindo era Henfil rindo. Como bem cantou Jorge Ben em sua clássica homenagem ao Pasquim: “o Henfil sofre um problema patológico, ele próprio é o Fradinho Baixinho”.

Ciente de seu imenso talento, o quadrinhista mineiro, aproveitando sua estada nos Estados Unidos para tratar de sua hemofilia, tentou publicar seus trabalhos pelos Syndicates, firmas que distribuem tiras para os jornais. E consegue. É contratado pela Universal Press Syndicate. Seu diretor, Garry Trudeau (Doonesburry), prevê o sucesso de Henfil. Apenas dois meses depois, a tira é cancelada. A tira era intitulada Bad Monks, nome que levaram os Fradinhos em terras ianques. Cumprido, nessa curta encarnação, chamava-se King Size, e o nosso Baixim foi rebatizado com o nada simpático nome de Runt. O público achou a série marginal em excesso, sem modos, anti-americana, depravada… Era um tipo de humor que caía bem ao lado de Robert Crumb (Fritz the Cat) ou Gilbert Shelton (Freak Brothers), em uma revista underground ou de vanguarda. Não tinha como ficar entre uma tira do Fantasma e outra do Flash Gordon.

Aqui ele também sofreu censura, mas o público soube aceitá-lo, assim como aceitou anos depois o humor igualmente ácido e sem concessões de Angeli (Chiclete com Banana) e Glauco (Geraldão), que colocavam diariamente em nossos jornais (inclusive em nossa ilustre ilha!) personagem nus, de pau duro e seringas fincadas em todo o corpo, ou uma mulher bagaceira mostrando o sexo para quem quiser e entornando álcool sem ter pena do próprio fígado.
Como não há coletâneas de Henfil em livrarias, somente caçando em sebos pode-se achar alguma edição da revista Os Fradinhos, que editou nos anos 70, ou outra publicação com seus outros clássicos personagens (Graúna, Ubaldo), adquirir a antologia Pasquim é uma boa pedida, para quem se interessa em quadrinhos conhecer esse que talvez seja nosso mais talentoso quadrinhista. E para quem não se interessa, mas comprou pela legenda que é o jornal, prestar mais atenção ao artista e sua poderosa criatividade.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.